No aniversário de 50 anos do primeiro título brasileiro em Copas do Mundo, os jornalistas de mais idade ficaram extremamente saudosos. Falaram de jogadores como Pelé, Garrincha e Didi com um inconfundível brilho nos olhos. Obviamente, não pude assistir ao vivo a estes jogadores. Mesmo assim, somente os lances mostrados pela televisão e os que se encontra pela Internet são suficientes para chegar a uma conclusão: tal brilho é totalmente justificável. Com a bola nos pés, jogadores como Didi (menos exaltado por boa parte da nova geração do que Pelé e Garrincha) faziam qualquer jogada parecer fácil.
O tratamento dado pela imprensa do País às bodas de ouro do futebol brasileiro com o título foi excepcional. Tão dourado quanto merecia ser. Em uma nação que reclama de si mesma por ter memória fraca, foi até impressionante o nível de valorização dada à data.
Tudo bonito, festa merecida, mas sempre há um "mas". E o grande problema, neste caso, é quando o brilho dos olhos seca e fica enterrado junto ao passado. O olhar que antes cintilava pelo bom futebol não só deixa de fulgurar como fica míope. E bota miopia para crer que o bom jogo não existe mais!
A Euro que se encerrou no último domingo é um ótimo exemplo. Jornalistas que optaram pela cegueira deixaram de apreciar uma das melhores competições dos últimos tempos. Times recheados de meias criativos e habilidosos, volantes com boa qualidade de passe e laterais ofensivos. Times que fogem de todos os clichês que os menos informados pensam ser o estilo de jogo europeu: nada de chuveirinho, atacantes duros ou times medrosos.
O que dizer, por exemplo, de uma Turquia tão argentina! Uma equipe que superou todos os seus limites e chegou a um nível inesperado, imprevisível. Uma seleção que, mesmo com inúmeros desfalques, alcançou as fases decisivas da competição, tirando, pelo caminho, a dona da casa Suíça, a respeitável República Tcheca e a forte Croácia. Turquia que foi protagonista em momentos que vão ficar na memória do torcedor. Os gols chorados, nos segundos derradeiros, contra tchecos e croatas, além do poder de superação exibido contra os alemães.
E o desempenho holandês na primeira fase! Um passeio, que fica mais impressionante quando lembrado que os adversários não eram fracos, mas, sim, Romênia, França e Itália. Van der Vaart, Sneijder, Van Persie e Robben (no pouco tempo em que esteve sem lesão) mostraram que a tradição holandesa de meias bons de bola permanece intacta. Holanda que só foi derrotada pelos russos, que tiveram no pé de Arshavin um futebol ousado, sem medo de driblar, e um conjunto invejável, coroando excelente trabalho do treinador Guus Hiddink.
Em meio a tantos aplausos, nenhum poderia ser maior que o dedicado à campeã Espanha. Finalmente, a Fúria venceu seus próprios fantasmas. Fatos que sempre rondaram a equipe, como o de que ela costuma ter mau desempenho em momentos decisivos, principalmente em quartas-de-final. E que modo de quebrar essa escrita! Logo contra os italianos, tradicionalmente fortes em mata-mata, na decisão por pênaltis após tenso empate, em noite iluminada do goleiro Casillas. Espanha que finalmente viu um grupo de bons jogadores virar um bom time e conquistar um merecido título.
O passado serve para aprendermos com os erros e reaplicarmos o que foi feito de bom. Por isso, é importante lembrar de craques como os da Copa de 1958. Porém, se olharmos para trás com o único intuito de desdenhar do panorama atual do futebol mundial, não só estaremos deixando o passado sem nenhum tipo de utilidade prática, como estaremos negando a visível realidade: competições como a Euro 2008 mostram que o futebol ainda está muito vivo. Só não vê quem não quer. Morrem os olhos saudosistas, mas o esporte respira. Sem aparelhos e com muita disposição.